quinta-feira, 17 de janeiro de 2013

Medicalização da Educação I




Oiê ...

Andei por aí lendo umas coisinhas e nestas caminhadas estive pensando sobre as discussões acerca da medicalização da educação. Participei do último Fórum de Medicalização da Educação (Ssa) no ano de 2012 e a prática clínica me faz pensar que dia a dia os casos de dificuldade de aprendizagem, dentre outras questões, vem sendo diagnosticadas através de cid's e rótulos.

Ou seja, as questões não médicas vem sendo transformadas em problemas médicos e a medicalização passa a instituir a epidemia de diagnósticos e não de doenças. Percebemos ainda que o enfrentamento da tristeza e da alegria passa a ser 'comprado' na farmácia. Conforme Foucault há uma (des)subjetivação em sujeitos expropriados da experiência ...

Para conferir mais informações sobre isso indico a leitura do livro:


Medicalização de Crianças e Adolescentes - Conflitos silenciados pela redução de questões sociais a doenças de indivíduos 



A obra resulta de uma parceria entre o CRP SP e o Grupo Institucional Queixa Escolar e evidencia a corrente reducionista dos processos sociais, relacionados à precarização das condições de vida e à uniformização de comportamentos, sentimentos e pensamentos.


Os textos, assinados por pesquisadores de várias áreas do conhecimento, apresentam implicações psicossociais da atribuição de patologias individuais a todos aqueles que fogem à norma abstrata e ideológica vigente. Para subsidiar o leitor, são apresentadas experiências substitutivas aos modelos medicalizante e manicomializante de atendimento, além de sugestões de leitura e de vídeos.


Amanhã continuaremos falando do tema ... até mais!

Milla






quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Desabafo ...





Oiê ...

E ai mundo digital ... como falei o "Fuxicando com Milla" é espaço de quase tudo. Hoje passei por umas situações pessoais e como aqui também é um pouquinho do espaço onde falo da minha vida queria desabafar com vocês. 

A cada dia amo mais os animais. Chico quando chego em casa me espera na porta, mia de felicidade e também me dá as boas vindas na retomada depois de um dia tenso ... estou decepcionada com pessoas ... algumas imersas na sua realidade doam ao outro ingratidão ... 

Amanhã tenho certeza que será melhor e digo ... apesar de tudo não perderei minha essência do bem ...

Inté a vista ... Milla

Liberdade por Contardo Calligaris



Oiê ... 
Hoje estava pensando sobre essa tal "Liberdade" ... me deparei com esta resenha da Folha do Calligaris ... penso que pra hoje ela diz algo para pensarmos ...
Milla


Liberdade para o quê?

Liberdade não consiste em escolher nas prateleiras do supermercado
CONTARDO CALLIGARIS


QUANDO JANTO fora, prefiro os restaurantes onde sou um cliente conhecido, porque, em princípio, eles aceitam com um sorriso meu comportamento, que é um pouco atípico: não gosto de ler o cardápio, peço o prato do qual estou a fim naquela noite, que ele esteja ou não no menu. Caso a cozinha não disponha dos ingredientes necessários, o maître e eu imaginamos um compromisso próximo de meus desejos.

Nota: às vezes os que lêem o cardápio do começo ao fim, à força de hesitar entre massas, risoto, carne ou peixe, acabam se entupindo de pão e couvert -e assim perdem o apetite. 

Pensei nisso ao reler "O Paradoxo da Escolha, Por que Mais é Menos", de Barry Schwartz, recentemente traduzido em português (ed. Girafa). Schwartz constata, com razão, que a multiplicação das possibilidades de escolha (que é própria da sociedade de consumo) constitui, de fato, um fardo. 
Exemplo: queremos comprar uma calça jeans e descobrimos que existem infinitos cortes, desbotamentos, preços etc. Ótimo, somos LIVRES PARA escolher entre centenas de jeans. Mas, de repente, eis que NÃO somos LIVRES DE uma tarefa, no fundo, fútil: a de encontrar a calça que nos veste melhor na perfeita relação custo/benefício. 

Na hora de escolher um carro, uma faculdade, uma profissão, um país ou uma cidade em que morar, as escolhas possíveis são, hoje, incontáveis. Portanto seríamos mais livres, não é? Pode ser. Em compensação, temos a trabalhosa (e, às vezes, desanimadora) incumbência de escolher. 

Schwartz opõe dois tipos subjetivos: os "maximizadores" e "os que se contentam com algo suficientemente bom". Os maximizadores querem absolutamente fazer a escolha certa; os outros sabem se satisfazer sem ter que alcançar a certeza de que fizeram o melhor negócio. 

Ora, constata Schwartz com razão, o maximizador não é nunca feliz: ele é corroído pelo remorso e pela dúvida (será que examinou efetivamente todas as possibilidades?). 

Schwartz chega a imaginar que a epidemia de depressão das últimas décadas tenha uma relação com a multiplicação das escolhas possíveis e, portanto, com a insatisfação crônica de nosso lado maximizador. Obviamente, os que sabem se satisfazer vivem melhor. Conclusão de Schwartz: 

o excesso de liberdade nem sempre é bom. (Grifo do Fuxicando com Milla)

Tudo bem. Mas vamos aplicar a visão de Schwartz ao campo amoroso. É claro que, se a tradição nos obrigasse a nos casar com a moça escolhida pelos anciões de nossa aldeia, a vida amorosa seria mais fácil. A liberdade para se juntar com quem quisermos é, de fato, uma complicação: para ter a certeza de que Fulano é meu homem fatal, com quantos Sicranos deverei compará-lo? 

Por outro lado, se adotarmos a sabedoria dos que sabem se contentar com o que lhes agrada, nossos parceiros e parceiras não vão gostar. 

Em geral, preferimos ser amados por quem acha que somos a melhor escolha possível, em absoluto. 

Ou seja, na vida amorosa, os maximizadores sofreriam como sempre, enquanto os que "se contentam" seriam detestados por parceiros e parceiras. Como fica? Pois é, talvez a vida amorosa seja um bom exemplo para descobrir os limites das idéias de Schwartz, porque, nela, a liberdade certamente não consiste em poder escolher o amado numa lista de pretendentes. Amar tem mais a ver com "encontrar" do que com "escolher". 


O livro de Schwartz é ótimo e divertido sem contar que pode ajudar todas as pessoas que se inibem diante da multiplicidade dos possíveis. Mas Schwartz parte de um pressuposto, que está implícito desde seu primeiro exemplo (o dos jeans): ele considera a pluralidade das escolhas possíveis como o índice da liberdade. Quando constata que essa liberdade é fonte de tormentos, ele conclui que talvez seja melhor sermos menos livres e mais felizes. 

Ora, a visão que Schwartz tem da liberdade é parasitada pelo próprio modelo do consumo, cujos impasses ele castiga. 

Ser livre não significa poder escolher entre os objetos disponíveis nas prateleiras do supermercado; ser livre significa saber criar o que queremos e encontrá-lo, mesmo e sobretudo quando não está em lista alguma de liquidações e promoções. Certo, o mal-estar do maximizador é uma patologia da liberdade de escolha. Mas a liberdade de escolher entre as ofertas que estão nos cardápios é, por sua vez, uma deformação da verdadeira liberdade -a de inventar. 
(Grifo do Fuxicando com Milla)


domingo, 13 de janeiro de 2013

Veríssimo - Um dia de merda

 


Oiê ...
 
Mais um domingo de verão ... e conforme já posto o "Fuxicando com Milla" também tem espaço para sorrir da vida ...
 
Alguns de vocês já devem ter escutado a frase "O que é um peido para que está todo cagado" eis que a resenha abaixo do Veríssimo explica extamente de onde ela vem ...
 
Tenham todos um bom domingo e vamos sorrir da vida!!!



Um dia de merda
Aeroporto Santos Dumont , 15:30...

Senti um pequeno mal-estar causado por uma cólica intestinal, mas nada que uma urinada ou uma barrigada não aliviasse. Mas, atrasado para chegar ao ônibus que me levaria para o Galeão, de onde partiria o vôo para Miami, resolvi segurar as pontas. Afinal de contas são só uns 15 minutos de busão.
 
’Chegando lá, tenho tempo de sobra para dar aquela mijadinha esperta, tranqüilo, o avião só sairía às 16:30′.
 
Entrando no ônibus, sem sanitários. Senti a primeira contração e tomei consciência de que minha gravidez fecal chegara ao nono mês e que faria um parto de cócoras assim que entrasse no banheiro do aeroporto.

Virei para o meu amigo que me acompanhava e, sutil falei:

‘Cara, mal posso esperar para chegar na merda do aeroporto porque preciso largar um barro.’

‘Nesse momento, senti um urubu beliscando minha cueca, mas botei a força de vontade para trabalhar e segurei a onda.’

O ônibus nem tinha começado a andar quando, para meu desespero, uma voz disse pelo alto falante:
 
‘Senhoras e senhores, nossa viagem entre os dois aeroportos levará em torno de 1hora, devido a obras na pista.
 
‘Aí o urubu ficou maluco querendo sair a qualquer custo’. Fiz um
esforço hercúleo para segurar o trem merda que estava para chegar na estação ânus a qualquer momento. Suava em bicas. Meu amigo percebeu e, como bom amigo que era, aproveitou para tirar um sarro.
 
O alívio provisório veio em forma de bolhas estomacais, indicando que pelo menos por enquanto as coisas tinham se acomodado. Tentava me distrair vendo TV, mas só conseguia pensar em um banheiro, não com uma privada , mas com um vaso sanitário tão branco e tão limpo que alguém poderia botar seu almoço nele. E o papel higiênico então: branco e macio, com textura e perfume e, ops, senti um volume almofadado entre meu traseiro e o assento do ônibus e percebi, consternado, que havia cagado.
 
Um cocô sólido e comprido daqueles que dão orgulho de pai ao seu autor. Daqueles que dá vontade de ligar pros amigos e parentes e convidá-los a apreciar na privada.
Tão perfeita obra, dava pra expor em uma bienal. Mas sem dúvida, a situação tava tensa. Olhei para o meu amigo, procurando um pouco de piedade, e confessei sério:
 
‘Cara, caguei!’

Quando meu amigo parou de rir, uns cinco minutos depois, aconselhou-me a relaxar, pois agora estava tudo sob controle. ‘Que se dane, me limpo no aeroporto’, pensei.
‘Pior que isso não fico’. Mal o ônibus entrou em movimento, a cólica recomeçou forte.
Arregalei os olhos, segurei-me na cadeira mas não pude evitar, e sem muita cerimônia ou anunciação, veio a segunda leva de merda. Desta vez, como uma pasta morna. Foi merda para tudo que é lado, borrando, esquentando e melando a bunda, cueca, barra da camisa, pernas, panturrilha, calças, meias e pés.

E mais uma cólica anunciando mais merda, agora líqüida, das que queimam o fiofó do freguês ao sair rumo a liberdade. E depois um peido tipo bufa, que eu nem tentei segurar.
 
Afinal de contas, o que era um peidinho para quem já estava todo cagado…

Já o peido seguinte, foi do tipo que pesa. E me caguei pela quarta vez. Lembrei de um amigo que certa vez estava com tanta caganeira que resolveu botar modess na cueca, mas colocou as linhas adesivas viradas para cima e quando foi tirá-lo levou metade dos pêlos do rabo junto. Mas era tarde demais para tal artifício absorvente. Tinha menstruado tanta merda que nem uma bomba de cisterna poderia me ajudar a limpar a sujeirada.

Finalmente cheguei ao aeroporto e saindo apressado com passos curtinhos, supliquei ao meu amigo que apanhasse minha mala no bagageiro do ônibus e a levasse ao sanitário do aeroporto para que eu pudesse trocar de roupas. Corri ao banheiro e entrando de boxe em boxe, constatei falta de papel higiênico em todos os cinco.

Olhei para cima e blasfemei: ‘Agora chega, né?’

Entrei no último, sem papel mesmo, e tirei a roupa toda para analisar minha situação (que concluí como sendo o fundo do poço) e esperar pela minha salvação, com roupas limpinhas e cheirosinhas e com ela uma lufada de dignidade no meu dia. Meu amigo entrou no banheiro com pressa, tinha feito o ‘check-in’ e ia correndo tentar segurar o vôo. Jogou por cima do boxe o cartão de embarque e uma maleta de mão e saiu antes de qualquer protesto de minha parte. ‘Ele tinha despachado a mala com roupas’. Na mala de mão só tinha um pulôver de gola ‘V’.

A temperatura em Miami era de aproximadamente 35 graus. Desesperado comecei a analisar quais de minhas roupas seriam, de algum modo, aproveitáveis. Minha cueca, joguei no lixo. A camisa era história. As calças estavam deploráveis e assim como minhas meias, mudaram de cor tingidas pela merda . Meus sapatos estavam nota 3, numa escala de 1 a 10. Teria que improvisar. A invenção é mãe da necessidade, então
transformei uma simples privada em uma magnífica máquina de lavar. Virei a calça do lado avesso, segurei-a pela barra, e mergulhei a parte atingida na água. Comecei a dar descarga até que o grosso da merda se desprendeu. Estava pronto para embarcar.
Saí do banheiro e atravessei o aeroporto em direção ao portão de embarque trajando sapatos sem meias, as calças do lado avesso e molhadas da cintura ao joelho (não exatamente limpas) e o pulôver gola ‘V’, sem camisa. Mas caminhava com a dignidade de um lorde.

Embarquei no avião, onde todos os passageiros estavam esperando o ‘RAPAZ QUE ESTAVA NO BANHEIRO’ e atravessei todo o corredor até o meu assento, ao lado do meu amigo que sorria. A aeromoça aproximou-se e perguntou se precisava de algo.
Eu cheguei a pensar em pedir 120 toalhinhas perfumadas para disfarçar o cheiro de fossa transbordante e uma gilete para cortar os pulsos, mas decidi não pedir:
 
‘Nada, obrigado.’
 
Eu só queria esquecer este dia de merda . Um dia de merda…
Luis Fernando Veríssimo (verídico).

sábado, 12 de janeiro de 2013

Gentileza gera Gentileza

Gentileza gera Gentileza
  
"Houve um homem enviado ao Rio por Deus. Seu nome era José Datrino, chamado de Profeta Gentileza (1917-1996).
Por mais de vinte anos circulava pela cidade com sua bata branca cheia de apliques e com seu estandarte, pregava nas praças e colocava-se nas barcas entre Rio e Niterói anunciando sem cansar: "Gentileza gera Gentileza".
 Só com Gentileza, dizia, superamos a violência que se deriva do "capeta-capital". Inscreveu seus ensinamentos ligados à gentileza em 56 pilastras do viaduto do Caju, à entrada da cidade, recuperados sob a orientação do prof. Leonardo Guelman que lhe dedicou um rigoroso trabalho acadêmico, acompanhado de vídeo e um belíssimo CD-ROM com o título Universo Gentileza: a gênese de um mito contemporâneo".
 

 
GENTILEZA
Marisa Monte
 
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
A palavra no muro ficou coberta de tinta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro tristeza e tinta fresca
Nós que passamos apressados
Pelas ruas da cidade
Merecemos ler as letras e as palavras de gentileza
Por isso eu pergunto a você no mundo
Se é mais inteligente o livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é um circo
Amor palavra que liberta
Já dizia um profeta
Apagaram tudo
Pintaram tudo de cinza
Só ficou no muro tristeza e tinta fresca
Por isso eu pergunto a você no mundo
Se é mais inteligente o livro ou a sabedoria
O mundo é uma escola
A vida é um circo
Amor palavra que liberta
Já dizia o profeta

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Algumas referências em Psicologia Escolar


Oiê ...

Hoje trago uma listinha com algumas indicações de leituras na área de Psicologia e Educação!!!!
Sempre penso que a forma mais eficaz de compreender sobre minha prática é estudando e ampliando as leituras que me abrem possibilidades de significar meus aportes teóricos ...
Até mais ...


PSICOLOGIA ESCOLAR




COLL, C. (org.) (1996). Desenvolvimento psicológico e educação: Psicologia da educação. Vols I, II e III. Porto Alegre: Artes Médicas.

ERNY, P. (1982). Etnologia da educação. Rio de Janeiro: Zahar.

FREITAG, B. (1980). Escola, estado e sociedade. São Paulo: Moraes.

GADOTTI, M. (1990). Concepção dialética da educação. São Paulo: Cortez/Autores Associados.

GADOTTI, M. (1990). Pensamento pedagógico brasileiro. São Paulo: Ática.

MANZIONI, M. A.; TEIXEIRA, M. B. (1994) Psicólogos na saúde e na educação: a busca de novos caminhos na compreensão da queixa escolar. In: NIGRO J. A. (Org.) Saúde escolar: a criança, a vida e a escola. São Paulo: Sarvier.

MACHADO A. M. e SOUZA, M. P. R. (Orgs.) (1997) Psicologia Escolar: em busca de novos rumos, SP, Casa do Psicólogo.

MACHADO A. M., (1994) Crianças de Classe Especial: efeitos do encontro da saúde com a educação. São Paulo, Casa do Psicólogo.

MACHADO A. M.; SAYÃO, Y.; SOUZA, M. P. R.,( 1997) As Classes Especiais e uma Proposta de Avaliação Psicológica. In Educação Especial em Debate. SP: Casa do Psicólogo, Conselho Regional de Psicologia.

MCLAREN, P. (1991). Os rituais na escola: em direção a uma economia política de símbolos e gestos na educação. Petrópolis: Vozes.

NIDELCOFF, M. T. (1985). Uma escola para o povo. São Paulo: Brasiliense.

SAYÃO, Y.; BOLETTA, A.; VICENTE, C. M.; VICENTIN, M. C. G.; ANDRÉ, S. A. B., (1994) 10 Medidas Básicas para a Infância Brasileira. SP, Terranova Prop. Unicef, Abrinq.

SILVA, T. T. (org.) (1993). Teoria educacional crítica em tempos pós-modernos. Porto Alegre: Artes Médicas.

SIROTA, R. (1994). A escola primária no cotidiano. Porto Alegre: Artes Médicas.
SOUZA B. P. (1990) Professora desesperada procura psicóloga para classe indisciplinada. Boletim da Ass. Bras. de Psicopedagogia, S.P. ano 9 no 20; p. 63-71.

SOUZA, M. P. R.; MACHADO, A. A.;SOUZA, B. P.; SOUZA, D. T. R.; FRELLER, C. C., A questão do Rendimento Escolar: mitos e preconceitos. In: NIGRO J.A. (Org.) Saúde escolar: a criança, a vida e a escola. São Paulo, Sarvier, 1994.

WECHSLER, S. M. (org.) (1996). Psicologia escolar: pesquisa, formação e prática. Campinas: Alínea.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar



Oiê ...

Continuo nas andanças internéticas em busca de leituras pertinentes.
Como sempre falo o "Fuxicando com Milla" é espaço de trocas, inquietações e por isso sempre que eu ler textos que ampliem meus horizontes irei compartilhar aqui.
O texto abaixo me fez hoje repensar sobre a prática cotidiana ...
Aguardo outros alinhavos através de comentários ... 


Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar
Edla Grisard Caldeira de Andrada1 
Universidade Federal de Santa Catarina

RESUMO
Este trabalho reflete acerca das implicações paradigmáticas envolvidas na prática do Psicólogo Escolar nos dias de hoje, que tem sido modificada radicalmente ao longo de sua história voltando-se para uma prática relacional, baseada em um pressuposto do ser humano em construção histórica e social. Entretanto, quando este profissional adentra uma instituição educacional, depara-se com inúmeras dificuldades: falta de compreensão de outros profissionais da educação acerca do papel do psicólogo na escola; manutenção de uma prática excludente, individualista (o problema está no aluno ou na sua família), caracterizando um pensamento cartesiano e linear de causalidade. Porém, confrontando posturas, poderá criar espaços de reflexão junto aos sujeitos da escola, visando criar condições mais justas de existência. A partir do pressuposto histórico-cultural e da teoria sistêmica, apresentam-se formas de criação destes espaços de reflexão acerca dos problemas da escola, cujos resultados apontam para uma nova prática do profissional de psicologia escolar.
Palavras-chave: Psicologia escolar; teoria sistêmica; psicologia histórico-cultural.

    Apesar de a Associação Brasileira de Psicologia Escolar/Educacional (ABRAPEE: www.abrapee.com.br) considerar como Psicólogo Escolar aquele cuja atuação se caracteriza mais pela intervenção na prática, enquanto que a dos psicólogos educacionais, geralmente, se direciona para as áreas de ensino e pesquisa2, considero impossível o trabalho do Psicólogo Escolar, sem esse olhar do pesquisador, que observa, analisa, avalia e escreve novas possibilidades de atuação, principalmente quando observamos a atual conjuntura da Psicologia Escola/Educacional no país, onde ainda se busca sua identidade a nível curricular e principalmente na sua prática institucional. Por isso, utilizarei neste artigo o termo Psicólogo Educacional para todo e qualquer especialista que atue no âmbito educacional, especialmente o de ensino regular público.

Convém lembrar que as especialidades do profissional de Psicologia foram regulamentadas segundo a Resolução do Conselho Federal de Psicologia nº 014/00, que pontuou as especialidades configuradas como as mais definidas no atual contexto sócio-político do país. Segundo artigo publicado no site do CFP (www.psicologiaonline.com.br): as definições das especialidades foram baseadas no CBO (Catálogo Brasileiro de Ocupações do Ministério do Trabalho) e apresentadas às entidades nacionais que representam os profissionais da área, para revisão e reformulação.

Dentre as especialidades, encontramos a do Psicólogo Escolar/Educacional, cuja atuação deve estar no âmbito da educação formal realizando pesquisas, diagnóstico e intervenção preventiva ou corretiva em grupo e individualmente. Envolve, em sua análise e intervenção, todos os segmentos do sistema educacional que participam do processo de ensino- aprendizagem.

Dessa forma, entendendo o trabalho do Psicólogo Educacional como acima descrito, este artigo contempla os paradigmas em voga quando se trata desta especialidade ao longo da história em nosso Brasil, assim como sua conseqüente prática. Também são contempladas as dificuldades atuais do Psicólogo Educacional que se encontra atuando em Escolas da Rede Pública Municipal e que nelas busca firmar a identidade desta especialidade.

Um pouco de história
É evidente que diante da sua especificidade, ou seja, a de envolver todos os segmentos do sistema educacional que participam do processo de ensino-aprendizagem, o Psicólogo Educacional não pode mais compactuar com o antigo paradigma que até então regia toda a nossa prática. Aqui se faz necessário voltar na história e relembrar como nasceu esta especialidade.

Segundo Patto (1997), as primeiras turmas de psicólogos na Universidade de São Paulo tinham a disciplina Psicologia do Escolar e problemas de aprendizagem... numa indicação clara de que o foco da atenção era o aluno (p. 7). Além disso, conforme a autora, as disciplinas que examinavam os problemas escolares partiam de especialidades como: psicologia do desenvolvimento infantil, do excepcional, psicologia diferencial, da aprendizagem, os testes e as medidas, centralizando os problemas de aprendizagem no aluno e concretizando a existência de uma norma, de um padrão de aprendizagem e desenvolvimento considerado normal, adequado e esperado.

Durante muito tempo, permaneceu a idéia de que a prática desse profissional, cujos instrumentos iniciais eram testes para medir a capacidade dos alunos, separando os aptos dos não aptos para a aprendizagem, caracterizando um pensamento excludente, moderno e linear, ou seja, de causa e efeito.

Os testes parecem ter dado lugar à lei do diagnóstico ou laudo: um papel que não explica ao leigo os motivos que levam determinado aluno ao tão famoso "fracasso escolar". Além disso, conforme relata Souza (1997):

a maioria dos psicólogos que emitem laudos psicológicos a respeito das crianças com dificuldades escolares desconhecem a força desse instrumento no meio escolar. Como avaliou Patto, ao estudar casos de multi-repetentes, a avaliação de um profissional de psicologia sela destinos. (p.26)

Utilizando-se de testes ou laudos, sem ética alguma, retirando o aluno da sala para readaptá-lo, para corrigi-lo, todo o fracasso é colocado nos ombros do aluno, que isolado na sua deficiência deve alcançar sucesso por vontade própria, sendo seu destino para sempre selado. É a ordem da moderna ciência da psicologia: excluir para adaptar às categorias universais.

O texto de Soar Filho (1998) apresenta uma reflexão importante acerca de como a ciência moderna e suas categorias universais e válidas para todos as situações e contextos encontram-se atualmente em xeque. Segundo o autor:

não só elas (as categorias) estão sob suspeita, mas o modelo de ciência como um todo, o qual apontava para o ideal da racionalidade, objetividade e neutralidade do conhecimento, e cujo método baseava-se na decomposição dos fenômenos em relações simples de causalidade, na elaboração das leis gerais, na verificação empírica e na replicabilidade dos resultados. (p. 86)

Se seguirmos este pensamento, ou seja, de que um fenômeno isolado é a causa de outro fenômeno, inúmeros argumentos nos servem de explicação para o fracasso do aluno: família desestruturada, baixa capacidade de concentração, deficiência mental, incapacidade intelectual, carência afetiva, hiperatividade, etc.

Assim, após ter confirmado a máxima do pensamento moderno, segundo o qual as diferenças são fruto das diferenças individuais, não das diferenças de oportunidades sociais – leia-se políticas e educacionais também - a psicologia educacional firma seu desejo e objeto de estudo: os problemas de aprendizagem das crianças (ver Kupfer, 1997, p. 51).

Seu lugar na escola foi finalmente garantido por uma sala de atendimento dentro da escola, que em nada mudaria o cotidiano escolar se tal atendimento fosse realizado na clínica, fora da escola. A, então prática do profissional de psicologia educacional, impregnada do paradigma linear, segundo o qual o aluno é um portador de deficiências, portador de falhas, faltas, não adaptado, enfim, é dono de sua dificuldade, pouco pode fazer em relação ao mesmo a não ser retirá-lo da sala de aula e trabalhar nas suas deficiências fora do contexto de sala de aula.

Segundo Kupfer, no entanto, ao entrar na escola, o psicólogo podia finalmente ater-se às vozes desta, conhecer e sentir o peso dos determinantes sociais sobre os problemas de aprendizagem (Kupfer, 1997, p. 52) e partilhando destas vozes não poderia continuar com a mesma visão acerca dos problemas de aprendizagem e da sua prática. A escola, porém, continuou com a expectativa criada pela própria psicologia: o profissional de psicologia educacional deve trabalhar com o aluno problema, com o aluno desviante, para que este se adapte às normas, à aprendizagem, enfim, à escola como um todo.

Um outro paradigma
A famosa "crise da Psicologia", vivenciada por L.S. Vygostky na Rússia do início do século passado, cuja reflexão trouxe frutos para a atual prática pedagógica nas instituições escolares, parece se repetir quando se trata da psicologia educacional, salvaguardando seus limites e perspectivas. Vygotsky (1979, 1983, 1998) elaborou todo um conhecimento acerca de como aprendemos, igualando todos os seres humanos no seu processo de aprendizagem, independente das possíveis limitações orgânicas e/ou físicas. Isso foi um salto qualitativo em termos de como pensamos os seres humanos, tanto que não foi aceito por décadas. Quando antes se pensava o indivíduo por si só, fora de seu contexto social, hoje se torna impossível refletir sobre a escola sem esse olhar de Vygotsky acerca da elaboração social dos processos psíquicos superiores. (ver Seidl de Moura & Ribas, 2000).

Entretanto, apesar de os achados de Vygotsky e colaboradores darem outro rumo à Psicologia e de darem à instituição escolar uma nova perspectiva de pensamento acerca do processo de ensino e aprendizagem, a Psicologia Educacional de hoje ainda se encontra em crise. Justamente esta especialidade que contempla os processos de aprendizagem e o contexto escolar.

Pode-se citar como fatores desta crise, em primeiro lugar, a demanda que é enorme. Há muitos alunos "desviantes, não adaptados" ao objetivo final da escola: socializar conhecimento científico elaborado historicamente. Em segundo lugar, a visão de muitos dos profissionais da educação ainda está pautada no paradigma de normalidade X anormalidade, onde se espera um padrão de comportamento e de atitudes que conduzem ao sucesso escolar. Finalmente, não há uma prática elaborada para o trabalho desse especialista no contexto escolar e ela não existe por que não foram elaboradas teorias que reflitam sobre a nossa realidade de escola pública no Brasil, demonstrando a necessidade de uma fazer diferenciado.

Aponta-se aqui para a necessidade de perceber a escola e os problemas ali presentes sob outro paradigma, não mais o modelo da causalidade linear, mas o da causalidade circular, que constitui o pensamento sistêmico baseado na cibernética, na teoria geral dos sistemas e na teoria da comunicação.

Tal pensamento postula a reflexão contextual e a impossibilidade da observação neutra e seus princípios são os seguintes: totalidade (o todo é maior que a soma das partes, ou seja, o funcionamento do sistema não pode ser entendido a partir do funcionamento de um só indivíduo); integridade de subsistemas (os sistemas possuem subsistemas que são integrados, relacionados uns aos outros); circularidade (todos os componentes influenciam-se mutuamente) (ver Schaffer, 1996, p. 205).

Para Tilmans-Ostyn e Kinoo (s/d):

O pensamento sistêmico funciona segundo um modelo circular. Isto significa que o lugar, o momento no qual situamos o inicio de um processo interacional, para daí deduzir uma compreensão, é totalmente arbitrário. Para iniciar a compreensão de tal processo, podemos ver outras coisas. A questão de saber quem começou, quem é a causa, não tem portanto sentido neste modo de pensamento. (p. 3)


Dessa forma, para compreendermos o processo interacional é preciso considerar diversas causas, assim como a função que determinado problema está exercendo neste processo. Tilmasn-Ostyn e Kinoo (s/d), ao avaliar o processo relacional familiar, segue afirmando que:

... o enfoque sistêmico tanto na investigação como no trabalho clínico têm mostrado como o sintoma apresentado pelo paciente identificado é uma solução para manter a unidade e o equilíbrio funcional familiar neste momento determinado. Isto significa que num primeiro momento o objetivo do médico não será necessariamente a superação do sintoma, mas de buscar o sentido positivo que este sintoma pode ter para a família (p. 3).

Com esta revolução no pensamento, o aluno não pode mais ser visto como sujeito dotado de problemas, como um ente separado do sistema relacional (família e escola), mas como um sujeito relacional. O Psicólogo Educacional não mais possui hipóteses "verdadeiras" sobre os problemas do aluno, tampouco se faz neutro na escola e nas relações que ali estabelece, pois sua simples presença já modifica o sistema observado (ver Soar Filho, 1998, p. 88). Além disso, precisa aceitar a idéia de que uma dificuldade de aprendizagem pode estar exercendo alguma função em um dos sistemas no qual o aluno vive.

Assim, o Psicólogo Educacional que se baseia no novo paradigma já não pode mais eleger um único modelo de explicação para as dificuldades de aprendizagem, como, por exemplo, o modelo organicista, pois precisa considerar múltiplas versões de um mesmo fenômeno (sem que apenas uma seja a mais verdadeira) e trabalha na interdisciplinaridade.

É importante lembrar, porém, como relata Soar Filho (1998) que os modelos de causalidade linear ou simples não são descartados, mas compreendidos como partes de modelos de complexidade crescente (p. 86). Assim, não se trata de abandonar o modelo de pensamento que nos serviu como base até então, mas de incorporá-lo ao modelo sistêmico.

Uma outra prática
Entre as tarefas descritas pelo CFP na resolução nº 014/00, mencionada anteriormente, destaco as seguintes possibilidades de atuação do psicólogo educacional:

a) aplicar conhecimentos psicológicos na escola, concernentes ao processo ensino-aprendizagem, em análises e intervenções psicopedagógicas; referentes ao desenvolvimento humano, às relações interpessoais e à integração família-comunidade-escola, para promover o desenvolvimento integral do ser;
b) analisar as relações entre os diversos segmentos do sistema de ensino e sua repercussão no processo de ensino para auxiliar na elaboração de procedimentos educacionais capazes de atender às necessidades individuais.
Inúmeras perguntas surgem a partir de uma leitura contextualizada e histórica da prática do Psicólogo Educacional e a partir das tarefas acima mencionadas. Tais perguntas podem ser acrescidas das seguintes: como promover o desenvolvimento integral do ser? Quais as intervenções psicopedagógicas mais adequadas? Como integrar a família no processo de aprendizagem? Como atender às necessidades individuais dos alunos no atual sistema educacional? Enfim, parece que a crise atual da psicologia educacional se encontra na impossibilidade de responder tais perguntas a partir do paradigma que até então regia nossa prática.

Para diferenciar-se, portanto, o Psicólogo Educacional que adentra uma instituição escolar, consciente do momento histórico de sua especialidade, precisa de início mostrar uma outra postura. Uma reunião inicial com a equipe pedagógica (orientadores e supervisores e direção, assim como professores) é mais que necessária, não só para colher dados concretos acerca da escola, mas principalmente para demonstrar que visão de sujeito o psicólogo tem, o que pensa acerca dos problemas de aprendizagem, que estratégias diferenciadas tem a oferecer além do esperado atendimento individual na sala do psicólogo.
Da mesma forma, o Psicólogo Educacional precisa criar um espaço para escutar as demandas da escola e pensar maneiras de lidar com situações que são cotidianas. Precisa criar formas de reflexão dentro da escola, com todos os sujeitos (alunos, professores e especialistas) para que se possa trabalhar com suas relações e paradigmas.

Ele precisa ouvir os alunos, o que pensam sobre sua escola e sua turma. Isso pode ser feito através de desenhos ou pedindo para que escrevam o que pensam, sentem, como percebem sua turma e sua escola. É igualmente necessário ouvir os professores, suas demandas e fazê-los participar dos atendimentos com as crianças, repensando novas práticas e novos olhares sobre o aluno que chama de "problema". Assim, o psicólogo educacional não cairá em armadilhas do tipo não sei mais o que fazer, dê conta desse problema para mim.

Também se faz necessário trabalhar junto à equipe pedagógica, criando espaços semanais de diálogo com os professores para que juntos cheguem a novas versões de um mesmo fenômeno, eliminando a possibilidade de estigmatizar os alunos com dificuldades.

Enfim, chamar a família do aluno com dificuldades a fim de que se possa colher dados acerca do outro sistema direto em que participa o aluno. Junto com a família, refletir sobre a função desta dificuldade neste momento do ciclo vital da família e criar estratégias para possibilitar o sucesso da criança. Confrontar família e professor quando necessário, criando um espaço de dialogo franco acerca das dificuldades de todos, não só do aluno, diluindo nos sistemas a "culpa" pelo fracasso escolar. Assim, outra armadilha é enfraquecida: a culpa sempre é da família.

A participação do Psicólogo Educacional está no cotidiano da escola, nas reuniões de conselho de classe, onde poderá estabelecer novas maneiras de olhar os alunos, evitando rótulos, diagnósticos imprecisos e hipóteses únicas. Deverá também participar do processo de construção do Projeto Político Pedagógico da escola.

Estudar e investigar o histórico escolar deste aluno indesejado ajuda muito, às vezes sua história de fracasso escolar é proveniente de outras instituições e pode ser revertido se toda a equipe de profissionais se reconhecer como agente de transformação social. O Psicólogo Educacional, questionador, curioso e acima de tudo assumindo uma posição de "não saber", pode criar junto à equipe uma estratégia de intervenção colaborativa, onde todos têm influência sobre o aluno, assim como sofrem influência mutuamente.

Finalmente, precisa ter a cautela para diferenciar problemas e para que as soluções sejam as mais justas e eficazes, ou seja, se um aluno é portador de necessidade especial, certamente um olhar organicista poderá ajudar na criação de estratégias de intervenção. O que aqui desejo afirmar é que não se pode descartar a possibilidade de existência de problemas de ordem congênita ou familiar, mas não justificar todo e qualquer comportamento inesperado de um aluno como fator de desajuste do próprio aluno.

Referências
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Vygotsky, L. S. (1979). Historia del desarollo de las funciones psíquicas superiores. La Habana/Cuba: Científico-Técnica.

Edla Grisard Caldeira de Andrada

1 Endereço para correspondência: Largo Benjamin Constant, 691, 403, 88015 390, Florianópolis, SC. E-mail: edla@floripa.com.br

2 A ABRAPEE entende por psicólogos escolares e educacionais aqueles profissionais que, devido a sua preparação universitária em psicologia e experiências subseqüentes nas áreas escolar e/ou educacional, trabalham para melhorar o processo ensino-aprendizagem no seu aspecto global (cognitivo, emocional, social e motor), através de serviços oferecidos a indivíduos, grupos, famílias e organizações.
Fonte pesquisadora: Scielo Brasil.